27 de Julho de 2006 - «Quero que venhas comigo às escolas»
Fevereiro 8, 2007
27 de Julho de 2006. Esta foi a primeira entrada na minha agenda. O objectivo era visitar algumas escolas, em alguns casos antes das intervenções, em outros após o fecho. O desconhecimento acerca do tema era quase total, e apenas não se traduzia em ignorância porque o debate tinha sido aceso até há pouco tempo. Alguns diziam que fechar uma escola era fechar uma aldeia, outros que não fazia sentido manter as crianças em condições precárias, e muitos outros argumentos foram posteriormente esgrimidos. Depois de conhecer bem as paredes do gabinete de trabalho, fui chamado desta forma, pela primeira vez, para a realidade. «Quero que venhas comigo às escolas». Que foi como quem diz, quero que venhas ver com os teus próprios olhos, que registes o que vês, e que depois voltes cá, daqui a algum tempo, ver o que mudou. Pairava no ar a vontade de mudar, de fazer, a necesidade de transformar a realidade em qualquer coisa melhor. E a consciência de um trabalho árduo a ser feito.
Ponte de Telhe. Estranho o sossego onde se espera bulício permanente, pela presença de crianças. Lembro-me, entretanto, que é tempo de férias. Ao entrar na escola, a sensação é a mesma de há vinte anos. Tudo se mantém. O fogão a lenha, as carteiras um pouco (pouco) mais modernas. Um armário antigo, repleto de livros antigos.
Paro, depois, por longos instantes a admirar uma caixa métrica. Sólidos de madeira, pesos, balanças, metros articulados. O sorriso é inevitável, e a sucessão de imagens a passarem pela memória também.
Metro, decímetro, centímetro milímetro… Vinte anos depois, verifico que muitas das coisas continuam exactamente iguais. Se em algumas coisas é bom, já em outras talvez não seja. Muita coisa mudou desde esse tempo. Há ali um frasco de tinta, que eu pensei em pôr ao lado do computador… Aqui vai ser uma escola diferente. Uma escola nova. Uma escola moderna. Depois de saber que todas estas coisas vão ser guardadas, penso que… ainda bem.
Bustelo. A desarrumação é o óbvio sinal de que aqui a escola vai deixar de o ser. Ao fundo, o crucifixo. Ao lado, o hino nacional e a bandeira. Em baixo o fogão a lenha. Detenho-me nas caixas de carimbos, ali ao lado de um pequeno fogão “camping-gaz”. «Eu ainda sou do tempo», diria, em que fervilhávamos de alegria para pintar carimbos a lápis de cor. Ali uma balança e, ao lado, rasas. Não resisti a fotografá-las.
À saída (ou à entrada), ainda estão os sapatos da Senhora Professora, que podia, assim, trocar de calçado, em dias de chuva. Talvez sejam das poucas coisas modernas desta escola, os sapatos. Abrimos dois ou três mapas das «nossas colónias», desse «Portugal de aquém e além mar em África». As carteiras, individuais, essas eram das mais antigas. Ainda. É uma pena, os sapatos. Mas parece que faz sentido que permaneçam à espera de melhores dias.
Telhe. À porta, uma placa com uma data não traduz a precaridade da casa. Uma casa alugada para ser escola. A vista, belíssima, faz-me parar o olhar na escola de Ponte de Telhe ao fundo. O destino é ali. Ao regressar ao interior desta casa, ou do que resta dela, porque casa talvez não seja o nome ideal, detenho-me no quadro eléctrico em absoluto equilíbrio malabarista. “Click”. «The end».
No regresso, prometo a mim mesmo que vou prestar atenção a tudo isto. Fixei, contudo, estes retratos, que sabia que nunca iriam ser notícia. Mas que eu vi. Bem ou mal, havia sítios onde a discussão não se colocava, pura e simplesmente. Há decisões difíceis. Rupturas difíceis. Mas também a certeza de que, neste como em muitos casos, são os graúdos que criam problemas, quando para os mais miúdos, como sempre, é tudo muito mais fácil. Por que não experimentámos, antes, regressar à escola, a esta escola? Porque é sempre mais fácil ter-se opinião. Só que alguém tem de decidir. E decidiu. Em contraste com a caixa métrica e com as carteiras antigas, regresso às paredes do gabinete. Liga-se um “USB” à máquina fotográfica e ao computador. Regista-se. 27 de Julho de 2007. Foi a primeira entrada na minha agenda.
Em relação aos sapatos, realmente não deviam ter ficado lá. Mas a realidade é que serviam mesmo para isso: trocar em dias de inverno. Tal como todos os alunos tinham à entrada da escola um par de calçado muito mais confortável e mais quente. São coisas que passam despercebidas a quem frequentou escolas com melhores condições.
Actualmente não sei como se encontra a escola, mas lá ainda havia tudo de antigo: carteiras, tinteiros, carimbos, o fogão a lenha, etc etc.
São riquezas que vão deixar saudades…… pena não haver mais fotos.
Bom dia,
Procuro adquirir peças escolares antigas … será que nesta sua pesquisa conheceu quem as pode vender?
Obrigado1
C. Nuno