Archive for the 'Sem categoria' Category

24 de Setembro de 2006 - «Desenrascas-te bem a falar francês?»

h1 Domingo, Abril 29th, 2007

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Depois de, com uma ponta de receio, mas resignado pelo facto de não haver mais ninguém com veia suicida para se arriscar num almoço com os nossos amigos franceses da cidade de Poligny, ter respondido afirmativamente a esta pergunta, fui descendo o passeio do Convento a tentar juntar mentalmente algumas palavras. O facto de saber que ia estar bem acompanhado, pelo dr. Campelo de Sousa, sossegou-me. Sobretudo depois de o ver ao longe. Depois de encontrados os nossos amigos, seguimos viagem para o restaurante. Imediatamente começamos a trocar impressões sobre vários temas. O que nos une e nos separa culturalmente, comparações acerca da organização política dos dois Estados, o Dennis falando fascinadamente da sua colecção de notas antigas e das compras que fez na feira de antiguidades. Um bom vinho maduro e um bom Porto fizeram as honras da casa, e regressámos calmamente à sombra do Convento, debaixo de chuva. À noite, reencontramo-nos nas tasquinhas, já com companhias diferentes. No meio das despedidas, e já com o francês completamente fluente, dizem-me «On vous attende à Poligny!». Surpreendo-me com a resposta imediata: «Dîtes ça a M. Neves…».

21 de Setembro de 2006 - «Quando a Mandrágora (não) sai da terra»

h1 Domingo, Março 11th, 2007

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Mandrágora. Quinta-feira, dia 21 de Setembro, 22 horas, Praça Brandão de Vasconcelos. Foi assim que se abriu o cartaz musical da Feira das Colheitas 2006. A mandrágora é uma espécie de maçã, que o povo acredita não só ter características afrodisíacas, como uma raIMG_2744_1.JPGiz de forma humana. «Grita quando é arrancada da terra», dizem alguns, e é por isso que esta Mandrágora está bem presa à terra. Ou é esse grito de não querer ser retirada que se faz ouvir. Na raiz da música portuguesa, mas aberta à influência de outras músicas, a Mandrágora conta já com um Prémio Carlos Paredes, que recebeu este ano. Pela importância da música que faz, para reforço da identidade cultural.

IMG_2752_1.JPGDurante cerca de uma hora, os Mandrágora viajaram por sonoridades ancestrais, afugentando a chuva, que parecia teimar em não abrandar, e cativando uma plateia bastante numerosa, tendo em conta o tempo chuvoso e o facto de ser uma quinta-feira. Vencedores do Prémio Carlos Paredes 2006, juntamente com Bernardo Sassetti, os Mandrágora trouxeram a Arouca uma nova forma de abordar as nossas raizes musicais.

Com uma marca bastante celta, este grupo demonstrou que, ao contrário do que se possa pensar, a música dita tradicional não está em crise, e que é possível fazê-la com qualidade, sem desvirtuar a raiz.

«Agradecemos ao pessoal da Câmara de Arouca e ao Ivo, que nos proporcionaram grandes momentos…» (in www.mandragorafolk.blogspot.com)

26 de Agosto de 2006 - «Mais de 120 exemplares de Arouquês desfilaram pela Vila»

h1 Terça-feira, Março 6th, 2007

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IMG_2565_1.JPGA paisagem serrana não tem a mesma vida sem os exemplares de arouquês que povoam estas paragens. Deslocando-se lentamente, amistosos, facilmente assustáveis, estes animais são de uma robustez pouco vulgar, tendo em conta os poucos recursos alimentares de que dispõem pelas encostas serranas. Em muitos casos vão ainda substituindo as máquinas, e podem ter uma vida útil de 16 a 18 anos. Pode dizer-se que a pacatez das montanhas onde vivem habita nestes animais, cuja beleza é tanta quanto saborosa é a carne que nos oferecem.

IMG_2550_1.JPGA 26 de Agosto, com esta calma, como se o tempo fosse o de antigamente, foram chegando à Vila vários produtores, acompanhados pelos seus animais. De cajado em punho, conduzindo, um a um, os bois, as vacas, as vitelas, alinhando-os, segundo as suas categorias.

Por ali, as imagens faziam lembrar outros tempos, em que as feiras de gado eram autênticos acontecimentos, pontos de encontro, pontos de debate e aperfeiçoamento de técnicas. Uma forma de os produtores avaliarem, mais do que os seus exemplares, a sua forma de produzir.

IMG_2546_1.JPGFoi interessante voltar a ver os ares da serra a invadir a Vila, fazendo-a voltar à sua origem. Fazendo-a, sobretudo, pensar nas riquezas que as montanhas que a circundam acolhem. O pretexto foi o Concurso Nacional de Bovinos e a Semana Gastronómica da Raça Arouquesa, eventos promovidos pela Associação de Agricultores do Concelho de Arouca e pela Associação Nacional de Criadores da Raça Arouquesa, com o apoio da Câmara Municipal de Arouca.

Relembrando que a paisagem serrana não tem a mesma vida sem estes animais. Os mesmos que nos fazem gabar a carne que servimos a quem nos visita.

19 de Agosto de 2006 - «Retalhos do mundo em estado puro»

h1 Quinta-feira, Fevereiro 15th, 2007

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19 de Agosto. Retalhos do mundo em estado puro. Festival Internacional de Folclore de Arouca, organizado pelo Conjunto Etnográfico de Moldes. Havia um bulício diferente, naquele dia, embora houvesse muita gente a seguir a sua rota pela vila, aparentemente sem saber o que se estava a passar. Ao cimo da Avenida, um colorido diferente começava a descer. Havia sons distintos, um colorido diferente, sorrisos exóticos, trajes peculiares.

IMG_2451_1.JPGDetenho-me no olhar profundo de uma senhora que traz o seu adufe. Como se me olhasse da profundeza de uma vida longa e plena de sabedoria. Com a mesma profundidade e simplicidade com que leva as mIMG_2479_1.JPGãos ao adufe, e traz um som que parece vindo do mais puro e profundo da terra. As vozes em uníssono, em melodias simples. Aquele olhar fez-me tentar voltar atrás no tempo, encontrar a mesma mulher na sua juventude. Encontrar-nos a todos mais atrás. E de como o mundo era diferente, de como os sorrisos eram mais puros. Esta e outras imagens tiveram para mim pelo menos o condão de me fazer voltar atrás no tempo. Como é importante não esquecer a raiz.IMG_2460_1.JPG E como é importante sentir que, mesmo estando longe no espaço, há traços comuns que fazem cair qualquer barreira, e que a música ajuda a encontrá-los e a fazer-nos reescrevê-los mais carregados. Há um grupo mexicano, um espanhol e vários portugueses, de várias localidades. Vejo que ainda há esperança para o folclore, ao contrário do que nos parece. Ainda há retalhos do mundo em estado puro. Onde o som se aveluda, vindo da dureza de outros tempos. Basta querermos ir buscá-los de novo.

17 de Agosto de 2006 - «Os velhinhos na Internet»

h1 Sábado, Fevereiro 10th, 2007

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17 de Agosto de 2006. Santa Casa da Misericórdia de Arouca. O projecto Net Sobre Rodas, do Entre Douro e Vouga Digital, veio a Arouca para aproximar os computadores dos “velhinhos”. Este é um dos adjectivos (ou substantivos) que toda a gente tem dificuldade em aplicar com certeza. “Idosos”, “seniores” ou “terceira idade” são sempre utilizados com todo o cuidado, e sempre sem saber se se está a ser desagradável… Acabei por optar pelo carinho do diminutivo ”velhinhos”.

O corredor é percorrido em absoluto silêncio, até à sala, onde estavam perfilados dez computadores, cada um com o seu respectivo utilizador. Não deixo de reparar nos sorrisos que, de imediato, começam a aparecer do lado de lá dos ecrãs. Por momentos hesito, será por nossa causa ou apenas pelas surpresas que o computador lhes vai fazendo? Começo a acreditar mais na segunda hipótese. Reparo que quase todos vão tentando saber mais sobre a sua terra a partir do portal da Câmara Municipal, o que nos deixa orgulhosos, por sabermos que o nosso trabalho vai sendo visto,  e com ainda mais responsabilidade, precisamente pela mesma razão.

Não consigo deixar de reparar na D. Maria, de quem fixei o nome por ver que ela o estava a escrever, em letras bem grandes no ecrã. Com a sua canadiana guardada nas costas da cadeira, a D. Maria aperaltou-se para poder navegar na Internet. Traz um vestido bonito, um penteado cuidado, pintou as unhas e até trouxe o porta moedas. Mal viram a máquina fotográfica, trataram todos de se pôr o mais bonitos, ou concentrados, ou eficientes possível. Os sorrisos que vou vendo demonstram que este dia, pelo menos este dia, foi diferente. Provam-me que realmente nunca é tarde para se aprender. Voltarei a vê-los em breve com a mesma eficiência, curiosidade e concentração. Com os mesmos sorrisos e a mesma vontade de aprender, em frente ao computador. D. Maria, por favor continue assim bonita e a mostrar-nos que não há mal em chamarmo-vos “velhinhos”, com carinho. Entre risos e comentários engraçados, continuam a navegar. “Click” A 17 de Agosto vi os “velhinhos” na Internet.

27 de Julho de 2006 - «Quero que venhas comigo às escolas»

h1 Quinta-feira, Fevereiro 8th, 2007

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27 de Julho de 2006. Esta foi a primeira entrada na minha agenda. O objectivo era visitar algumas escolas, em alguns casos antes das intervenções, em outros após o fecho. O desconhecimento acerca do tema era quase total, e apenas não se traduzia em ignorância porque o debate tinha sido aceso até há pouco tempo. Alguns diziam que fechar uma escola era fechar uma aldeia, outros que não fazia sentido manter as crianças em condições precárias, e muitos outros argumentos foram posteriormente esgrimidos. Depois de conhecer bem as paredes do gabinete de trabalho, fui chamado desta forma, pela primeira vez, para a realidade. «Quero que venhas comigo às escolas». Que foi como quem diz, quero que venhas ver com os teus próprios olhos, que registes o que vês, e que depois voltes cá, daqui a algum tempo, ver o que mudou. Pairava no ar a vontade de mudar, de fazer, a necesidade de transformar a realidade em qualquer coisa melhor. E a consciência de um trabalho árduo a ser feito.

armario.jpgPonte de Telhe. Estranho o sossego onde se espera bulício permanente, pela presença de crianças. Lembro-me, entretanto, que é tempo de férias. Ao entrar na escola, a sensação é a mesma de há vinte anos. Tudo se mantém. O fogão a lenha, as carteiras um pouco (pouco) mais modernas. Um armário antigo, repleto de livros antigos. caixamedida.jpgParo, depois, por longos instantes a admirar uma caixa métrica. Sólidos de madeira, pesos, balanças, metros articulados. O sorriso é inevitável, e a sucessão de imagens a passarem pela memória também.garrafadetinta.jpg Metro, decímetro, centímetro milímetro… Vinte anos depois, verifico que muitas das coisas continuam exactamente iguais. Se em algumas coisas é bom, já em outras talvez não seja. Muita coisa mudou desde esse tempo. Há ali um frasco de tinta, que eu pensei em pôr ao lado do computador… Aqui vai ser uma escola diferente. Uma escola nova. Uma escola moderna. Depois de saber que todas estas coisas vão ser guardadas, penso que… ainda bem.

carimbos.jpgBustelo. A desarrumação é o óbvio sinal de que aqui a escola vai deixar de o ser. Ao fundo, o crucifixo. Ao lado, o hino nacional e a bandeira. Em baixo o fogão a lenha. Detenho-me nas caixas de carimbos, ali ao lado de um pequeno fogão “camping-gaz”. «Eu ainda sou do tempo», diria, em que fervilhávamos de alegria para pintar carimbos a lápis de cor. Ali uma balança e, ao lado, rasas. Não resisti a fotografá-las. sapatos.jpgÀ saída (ou à entrada), ainda estão os sapatos da Senhora Professora, que podia, assim, trocar de calçado, em dias de chuva. Talvez sejam das poucas coisas modernas desta escola, os sapatos. Abrimos dois ou três mapas das «nossas colónias», desse «Portugal de aquém e além mar em África». As carteiras, individuais, essas eram das mais antigas. Ainda. É uma pena, os sapatos. Mas parece que faz sentido que permaneçam à espera de melhores dias.

quadroelectrico.jpgTelhe. À porta, uma placa com uma data não traduz a precaridade da casa. Uma casa alugada para ser escola. A vista, belíssima, faz-me parar o olhar na escola de Ponte de Telhe ao fundo. O destino é ali. Ao regressar ao interior desta casa, ou do que resta dela, porque casa talvez não seja o nome ideal, detenho-me no quadro eléctrico em absoluto equilíbrio malabarista. “Click”. «The end».

No regresso, prometo a mim mesmo que vou prestar atenção a tudo isto. Fixei, contudo, estes retratos, que sabia que nunca iriam ser notícia. Mas que eu vi. Bem ou mal, havia sítios onde a discussão não se colocava, pura e simplesmente. Há decisões difíceis. Rupturas difíceis. Mas também a certeza de que, neste como em muitos casos, são os graúdos que criam problemas, quando para os mais miúdos, como sempre, é tudo muito mais fácil. Por que não experimentámos, antes, regressar à escola, a esta escola? Porque é sempre mais fácil ter-se opinião. Só que alguém tem de decidir. E decidiu. Em contraste com a caixa métrica e com as carteiras antigas, regresso às paredes do gabinete. Liga-se um “USB” à máquina fotográfica e ao computador. Regista-se. 27 de Julho de 2007. Foi a primeira entrada na minha agenda.