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caimPropositada ou não, a «descarga» de Saramago contra a Igreja Católica teve, como se previa, a principal consequência de colocar toda a gente a falar do autor e do livro em causa. É certo que, quando manifestamos uma ideia, a manifestamos do ponto de vista em que olhamos para «a coisa», e fundamentamos, e selamos isso com a nossa visão. Mas fazer disso uma visão universal, ou pretendê-lo, é, talvez, exagerado. Como defensor da liberdade que, julgamos, será, deveria, pelo menos, dar o benefício da dúvida aos que se dizem crentes, dando espaço às suas perspectivas, e não os reduzir a uma espécie de «bando de alienados». Sabemos bem que a Bíblia não é um manual de instruções a ser lido à letra. Se o fosse, estaríamos, muito provavelmente, a aproximar-nos de um fundamentalismo semelhante ao islâmico, que, esse sim, se baseia em leituras literais do Alcorão. No mundo cristão sabemos bem que nem tudo é assim. A conclusão que muitos comentadores acabaram por retirar foi a de que isto não seria mais do que uma provocação, um «golpe publicitário». A ser assim, resultou. A partir de hoje, também há um exemplar na estante de casa.