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Hoje, ao apertar a mão, de manhã, ao António «Rato», tive uma espécie de premonição do que o dia me iria ensinar. Enquanto nos cumprimentávamos, sentia a mão gretada e carnuda, de quem trabalha a pedra. De quem esculpe. De quem constrói, com arte. Senti que a minha mão, esguia e magra, estava a dizer-me que talvez nunca tenha construído (e talvez nunca construa) nada. Nem com, nem sem arte. Talvez nem plantar uma árvore. Nem ter um filho. Nem escrever um livro. Não tenho as mãos gretadas da arte. Nem de construir. Nem de esculpir nada. Nunca construí um muro, colocando, paciente e sabiamente, pedra sobre pedra, com o engenho e a arquitectura de quem sabe que é assim que se faz. Nunca esculpi um pináculo. Nunca fiz uma calçada. Nunca tive a mão gretada. Nem do tempo. Nem do saber. Nem de nada, a não ser de frieiras. Em menos de um minuto, a mão do António «Rato» ensinou-me tudo sobre arte, saber, viver. Ensinou-me, ao largar, que tudo o que eu sei sobre a vida é um imenso nada.