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Toda a música que possa produzir no Orfeão de Arouca tem o tamanho de dois abraços. Um, à Nádia Oliveira. Outro, ao professor Ramiro Fernandes. Nos dois casos, pela mesma razão: porque são, cada um a seu modo, os «culpados» por poder ser eu a conduzir os sons. E porque também são, em boa medida, «culpados» por ser o «músico» que sou. Mas hoje o dia não é nosso. O dia é do professor Ramiro, que chega hoje ao fim de uma caminhada absolutamente notável. Durante cerca de 30 anos, sem olhar a meios nem a esforços, lançou-se à recolha de canções tradicionais de Janeiras, por todo o concelho. Ouvindo centenas de informadores. Fazendo autênticos «puzzles» musicais. Recolhendo preciosidades que, pela idade de muitos informadores, se não houvesse esta disponibilidade, muito provavelmente estariam hoje perdidas. Como disse, e muito bem, o padre José Paulo Teixeira, o professor Ramiro é um homem bom. Um homem, provavelmente, demasiado humilde. Mas isso não o impediu de se lançar numa tarefa hercúlea, que hoje mostra que foi capaz de cumprir com bravura. «Arouca a cantar as Janeiras» é, provavelmente, o mais completo cancioneiro deste tipo no país, que dignifica uma tradição com fortes raízes em Arouca. É um tributo à nossa cultura, à nossa identidade, que um homem bom, demasiado humilde, simples, mas rico de valores e de uma disponibilidade a toda a prova nos deixa. Esta foi uma das formas de o homenagearmos. Com música.