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jose-socratesDevido aos «ossos do ofício», Orwell teve de fazer parte das leituras obrigatórias. Na altura, a ideia de um «Big Brother» televisivo estava ainda distante e o romance «1984» (a par, eventualmente, do «Admirável Mundo Novo», de Aldous Huxley) assumiu-se como intrigante. Muito tempo passou, e, agora, as dúvidas levantam-se de uma forma quase chocante. Será que São Bento anda a vigiar e escutar Belém? É preocupante pensarmos que temos um Governo que nos vigia, e, mais, que vigia o garante da nossa liberdade, que é a Presidência da República. É intimidatório sabermos que talvez o nosso íntimo esteja a ser conhecido. «Big Brother is watching you», era uma das frases mais desarmantes que Orwell fazia ecoar nas suas páginas. Fica o sentimento de podermos ter os nossos passos condicionados, seguidos, eventualmente reprimidos, numa espécie de democracia quase inexistente e controlada (deixando, portanto, de ser democracia). Alguns dos mais altos dignatários do nosso país admitiram, directa ou indirectamente, que poderiam estar a ser escutados ou seguidos. E este silêncio ensurdecedor de Cavaco Silva é intrigante. Não quero um Governo com tiques autoritários. Não quero um Governo com tiques «controleiros». Não quero um Governo «omnipresente». Não quero um Governo que não sabe ocupar o seu lugar. Não quero um Governo com demasiado poder. A ser assim, não quero um Governo assim.