Select Page

Paulo Rangel surge, hoje, em entrevista ao jornal «Público». A entrevista merece leitura atenta, mais sob o ponto de vista da substância do discurso do que da (eventual) concretização das ideias. A «ruptura», que surge, repetidamente, no discurso do (agora) candidato é, de facto, a maior necessidade que enfrentamos. Ruptura com o passado. Ruptura com o preconceito. Ruptura com esta forma «controleira» e arrogante de se fazer política por se fazer. E, sobretudo, ruptura de uma visão parva de se pensar o futuro ano a ano, ou de ciclo eleitoral em ciclo eleitoral, hipotecando, pouco a pouco, o futuro e o bem-estar dos vindouros. Ainda do ponto de vista do discurso, Paulo Rangel é verdadeiro quando aponta que a unidade é algo «de fachada», procurando ser mais amplo do que um simples pacificador das hostes ou interlocutor entre «barões» e «notáveis», com simples preocupação com as bases para o voto, e mais nada. E, a cereja no topo do bolo, alerta os portugueses para o facto de aquela senhora, que nos cartazes não ficava, de facto, muito bem, mas que se comprometeu a «falar verdade» aos portugueses, tinha, de facto, razão, apesar de todo o desastre que tem sido o PSD nos últimos tempos. Do ponto de vista do discurso, Paulo Rangel está onde um sério candidato à vitória tem de estar. Mas todos sabemos que vai uma grande diferença entre o discurso e a operacionalização. E quando a «máquina» é o PSD, as coisas não passam tão facilmente.

Três candidatos representam três visões (mais ou menos diferentes) do objecto. Nesta altura, o PSD precisa de um candidato que, verdadeiramente, represente um partido transversal, com grande implementação, e que possa devolver aos portugueses o Portugal pensado por Sá Carneiro. Não havendo um candidato único, que possa cumprir o desiderato de devolver-nos Portugal, continuamos a assistir à ascensão e queda de segundas escolhas. Talvez porque, internamente, o PSD é democrático demais, permitindo, muitas vezes, que «qualquer um» possa sonhar.

«Não pode uma sociedade pôr encargos tais sobre o futuro das suas gerações que elas fiquem sem nenhum espaço de liberdade e que tenham uma de duas soluções, serem escravas da dívida anterior ou emigrar. A grande ruptura que se tem de fazer nas políticas tem de ser voltar a dar outra vez a oportunidade a cada geração de gerir o seu destino».

«A grande tarefa do PSD não é a unidade, mas a clarificação do seu projecto. É saber se quer ser o partido de ruptura pela terceira vez. A unidade não deve ser a nível ideológico. Unidade é não fazer distinções entre aparelho e elites, bases e barões, os regionalistas e os dos continente. Unidade é o respeito pela idiossincrasia de cada um».

«Isto é uma candidatura solitária. Não conversei com estruturas partidárias, não conversei com dirigentes do partido, muitos deles foram apanhados de surpresa. Informei a dr.ª Manuela de que ia avançar, como informei outras pessoas. Mas o apelo que mais senti era na rua».

«Foi um mandato [de Manuela Ferreira Leite] no qual tive muita honra e gosto em colaborar e credibilizou o partido. Manuela Ferreira Leite teve ainda a felicidade de ser presidente do partido quando o país já percebeu que ela teve razão na maioria das suas bandeiras. Três meses depois das legislativas, é evidente para todos que as suas principais preocupações eram aquelas que verdadeiramente podiam afligir o país. Significa que ela, ao contrário do Governo, estava em sintonia com a realidade».

(Paulo Rangel, Eurodeputado, em entrevista ao jornal «Público» de hoje)